quarta-feira, maio 19

do lago

sentir-se só sem ser..
toda a ausência causa caláfrios que aquecem a necessidade do calor compartilhado na banheira vazia e fazem o grande vão parecer eternamente desabitado.

a aurora faz pessoas tão iguais parecerem sombras ensimesmadas.
sentir-se preso num emaranhado de pesoas prontas,
engendra uma realista prece de ateus santificados.
olho os carros no vem-e-vai eloquente e miro um futuro palpável como pinturas rupestres.

a carne mal cozida e desidratada do rosto enrubescido,
lança o peso de uma puberdade leviana sufocada
e faz emergir sonhos fúnebres roubados de si mesmo.

assim, alista-se no exercícito do tempo mal vivido e faz os pequenos meandros da relva interna ganharem a superfície.
tão meus são os seus medos, que torno-me acidentalmente a irrevogável causa deles.

sexta-feira, maio 7

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carícias de flores nos corpos descansados na frondosa varanda. cheiro de café com leite às oito da matina, desperta o olfato para um dia de leituras e bordados. aos domingos, acordo cedo para ouvir as canções que você fez pra mim. à noite, com os óculos na ponta do nariz, olho para o fundo do corredor escuro e repleto de quadros com fotografias daquele que será sempre o meu fotógrafo preferido e penso que o futuro é aqui. agora.
o limão colhido no quintal nos mima suavemente com o melhor suco que já bebemos e que faço pra ti com tanto querer bem, e fica doce mesmo sem o açúcar mascavo, aquele que tanto gostas. uma ode aos documentos perdidos, esquecidos e amarelados pelo tempo que não perdoa, suga o viço e coalha a carne, tornado-a viscosa.
no fim da semana, iremos às compras. geléias, deliciosos e tenros biscoitos, queijos e vinhos. ah.. esses serão secamente consumidos no vão aconchegante, acompanhados por um bom filme, os realizados pelos nossos diretores preferidos e os que nós fizemos (exceto aquele, de que gosto tanto e que você considera piegas demais). lembra da péssima luz naquele dia? como esquecer?! Aquela luz corroborou a imagem maculada que carregaremos por toda a caminhada de vida, desde o fatídico dia de encontro às portas de um café pequeno-burguês freqüentado por gente insossa.
a imagem transfigurada da viagem sem volta..

sexta-feira, abril 16

a nudez das coisas

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a fala fragmentada sopra delicadezas viris, coisa de quem tem aquele não-sei-quê-especial.

ainda inerte no lugar onde escolhi para ficar durante três horas ininterruptas, ouço-sinto um tilintar exalando dizeres para-todos [em certos momentos ecoa endereçado, pois aventuras antropológicas se fazem em qualquer lugar..]

naquela hora, todas as minhas certezas, tão sólidas quanto a neve que nunca vi, derretem-se. coisa de quem se deixa fluir um tanto demais. penso: "tome tento, moça! seu refúgio e seus livros são um caminho certo para a sensatez."

nunca foi o meu forte, a sensatez. sendo assim, me jogo do 15° andar e sinto um turbilhão híbrido rasgando a 360km/h o meu peito nu.

o olho humano também é nu. apasar das lentes de correção, há um invísivel e infinito escarcéu de seres inanimados e impressões corriqueiras que nunca saberemos se são reais ou não.

"menina, se não pensamos nelas, simplesmente não existem!" e a recíproca também é verdadeira.

olho a lua imagética num espelho cristalino e sussurro internamente: "deviam ser meus, os olhares fortuitos cuspidos em vão por aí.."

então, me encontre lá.

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segunda-feira, abril 12

atenção.flutuante

cheiro de café + leitura secreta de olhares resultam em divergências de linguagem. entre-linhas e cigarros, o realce de um iluminado caminho se transforma em [con]fusão de labirintos. soprando convites à transposição de imagens em espelhos d’ água, ritos e mitos sugerem um solstício singelo e rejuvenescedor. a película envolve assimetricamente a pele desejante. assim, debutaremos 72 horas sob complexo desenvolvimento de seqüências: vibrante documento de fantasias realistas.

segunda-feira, abril 5

lição de casa

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na sala fria e rarefeita de olhares,
o cabra é marcado para enternecer..
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vomite os seus segredos, não engavete os seus sentidos.
desenvoltura e perspicácia configuram um pião giratório.
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façamos, então, um plano que não permaneça apenas no plano das ideias.
venha! e mostre-me que podemos ser mais que criaturas contemplativas.
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necessidade física transfigurada em imagens,
sensação debutacional inexistente aos quinze.
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lindeza e doçura e lábios e voz e atos fatidicamente vexatórios.
voz doce, mesmo falando salgado.
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o suor é água de beber até a última gota,
todos os fluidos possíveis..
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e criemos outros mais, já que tenho sede insaciável.
tente: arranque-nos desse mar de morbidez.
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tu sabes? eu sei.
montemos juntos um quebra-cabeça..

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sábado, abril 3

fluidez

corro. e grito ao mundo que não há satisfação alguma em sentir-se plena. dê-me a mão. venha! corra comigo e grite também . corpos fluidos num tempo-espaço especialmente relativo. opiniões, gestos e sussurros comedidos não têm vez. necessito de um exagero descomunal e mítico. navalha afiadíssima perfurando cada milímetro da carne essencialmente lasciva e [por que não?] vulgar. nada de discrição: observe como se faz e ajoelhe-se. Não significa prece ou imitação. Apenas feche os olhos e sinta. não chore.

reminiscências

danço enquanto o corpo enlutado respinga gotículas de sonhos plastificados e devidamente compartimentados em caixotes de vento. não sei o que quero tampouco o que não quero. chuva e maresia me cortam a garganta. gilete? talvez pelas melancólico-bucólicas ruas de um certo ponto g. existe? oh, cientistas de todas as nacionalidades e especialidades não foram capazes de decifrar. ninguém melhor do que você: complicação personificada em sinônimo de defasagem intelectual. não se sabe o caminho, ele não existe: pulula em um jardim de inverno de coisas criadas e ponto [g?]

quinta-feira, janeiro 7

alumiando caminhos


numa tarde daquelas em que o sol puxa os cabelos das meninas fazendo-as dedilhar o vento sorrateiramente, a maior delas leva a pequena raio de sol a uma bela paisagem da cidade cinzenta-solar-ventania e lhe mostra as belezuras do fazer-escrever poético. poética dos manuéis. manuel é um nome bem bonito, bem que poderia ser manual... só que tem de ter liberdade para beber as palavras embutidas em nuvens, lagartas, paralelepípedos, gizes, cheiros de mato e leveza [por vezes, dureza nessa vida]. sensação estranha essa, de querer mostrar a uma criatura o que há de mais vertiginoso e desimportante no mundo...

domingo, novembro 8

lúdicoretrô

cortar papel: colcha de retalhos em gravuras coloridíssimas, que falam sobre si tanto quanto o seu psicanalista.
a conversa, os formatos, as escolhas e a ajuda despretensiosa vêm embaladas por ternas ondinhas douradas [cachos, vez em quando]
tudo-tudo intercalado pela visceral disputa entre mário e luigi [empacada pela condição de não saber nadar, ou melhor, voltar à superfície após o mergulho]
ensinar-apreder-ensinar-aprender. e não necessariamente nessa ordem.

segunda-feira, outubro 26

bi[s]


o cuidado que não houve quando mais precisou do calor-ardor que outrora afogava o corpo-receptáculo exausto e trêmulo e sôfrego e impulsivo. um colchão pouco confortável vestindo uma colcha de poás embala os sonhos que nunca aconteceram. indecifráveis? desvencilhou-se das amarras, mas o olhar que clama por aprovação e cumplicidade é uma outra história. noites insones, pálpebras pesadas e desassossego significam afastar o medo e agüentar o peso. desorganização mental e estética dentro e fora de si. o filme que nunca foi visto, a música que nunca dançou, o livro que nunca chega ao fim e a pintura interna que não usou aquarela, é tudo no preto e no branco. bicolor e consensual, apenas.